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#porumavidasemcatracas

A última quinta-feira, 27 de maio de 2010, poderia ser apenas mais uma quinta-feira, entre tantas quintas-feiras (e mais um maio entre tantos outros maios). Mas não foi. E isso não se deve ao fato de que, depois de três semanas de desgastantes manifestações, mais uma vez algo em torno de três mil pessoas retornaram às ruas para protestar contra o aumento da tarifa de ônibus e pelo passe livre. Por isso, estas linhas que seguem não serão o relato de mais uma manifestação. A rebeldia da juventude desta cidade, ao menos nos últimos seis anos, já faz parte de uma certa tradição – já possui enraizamento nesta Ilha. A todos esses rebeldes, meus companheiros, este texto é dedicado. Se essa é a razão pelo qual lhes dedico, outra é a razão pela qual escrevo neste momento. Algo de especial gravidade ocorreu naquele 27 de maio – tão grave que não me deixa calar. Por volta das oito horas da noite, na Rua Artista Bittencourt, do alto de algum prédio próximo, um objeto (mais especificamente, um vaso) foi lançado em direção aos manifestantes que lá estavam. O vaso passou a menos de 50 cm de minha cabeça e, por sorte, atingiu um carro. Se alcançasse seu destino, este texto não estaria sendo escrito.

Não é de hoje que manifestações populares causam um certo incômodo na população. Em geral, pessoas perdem preciosos minutos de sua atarefada vida. O direito de ir e vir dos carros é sacrossanto – é ele que define nossa liberdade, a autodisposição sobre nossos corpos. Nada – quer dizer, especialmente estudantes – pode restringi-lo. Aliás, engarrafamentos colossais em horários de pico, na ponte e em demais regiões da cidade são toleráveis. Já engarrafamentos causados por manifestantes, jamais. Aquele senhor pode até simpatizar com o movimento, com a indignação frente a mais um aumento abusivo da tarifa de ônibus. Mas quando estudantes impedem sua livre circulação na Av. Mauro Ramos, ou simplesmente perpassam a rua de sua casa, um sentimento maior que a indignação toma posse de seu corpo: esse pacífico sujeito, sempre fiel à ética e à legalidade, adota a postura da revolta. Revolta materializada no arremesso de um recipiente de barro na cabeça de outras pessoas.

E antes de qualquer argumento, refuto. Tal ato não se relaciona a mais um traço da irracional maldade humana. É preciso dizer: o mal nunca esteve do lado da irracionalidade. Isso nos ensinaram os campos de concentração nazistas, tão milimetricamente calculados e cuidadosamente gestionados pelos alemães. Esse ataque, mesmo que gratuito, certamente não surgiu de uma pessoa fora de suas faculdades mentais. Surge de uma certa linha de raciocínio que considera todo e qualquer manifestante um deliquente; e, portanto, criminoso. A linha que separa, de um lado, um vaso jogado contra a cabeça de estudantes e, de outro, policiais do BOPE atirando balas de borracha em manifestantes, como se vê, é bastante tênue.

A pergunta a ser feita é decerto a mais óbvia: o que afinal leva alguém a arremessar um vaso na cabeça de outra pessoa? A história do nosso País, acostumado a distanciar a população da política, marcado pelos acordos e chantagens de cúpula, talvez nos ajude a elucidar esta questão. O Brasil não é um país acostumado à ideia de que os direitos se conquistam. Para a grande maioria de nossos juristas, os direitos “emergem” como que fruto de uma varinha de condão de alguma mente iluminada e da irrefreável evolução humana. No entanto, não deve ter sido à toa que a primeira Constituição do mundo (a do México) que prevê Direitos Sociais tenha sido fruto de uma Revolução – a Revolução Mexicana. Nem que a situação de degradação do Trabalho nos países ocidentais tenha sido alterada somente após a organização da luta operária em partidos e sindicatos. Muito menos que a nossa Constituição de 88 – bastante avançada na perspectiva de garantia dos direitos – tenha surgido num contexto de redemocratização na qual as greves ainda não possuíam conotação negativa no senso comum. O que tanto operadores do direito (inclua-se aí estudantes, membros do Poder Judiciário e advogados), quanto grande parte da população têm dificuldade de entender é justamente essa dimensão fundadora da atuação política, da qual o próprio direito positivo é rebento. Com isso, não apenas rejeitam a manifestação como ato político legítimo, como combatem-na de todas as formas. Num contexto como esse, não é de se admirar que as veias abertas de nossa democracia continuem a persistir: entre a ordem e a superação dos traumas do passado, opta-se pela ordem. E assim os torturadores do regime militar são anistiados – mesmo às custas da institucionalização da tortura por parte da polícia, que não tortura mais apenas revolucionários, mas todos os que chegarem às suas mãos. E assim manifestantes são hostilizados – quando não agredidos -, não apenas por policiais, mas por pessoas que preferem a condição de súditos em vez da de cidadãos.

Não se espera da polícia outra atitude senão a própria repressão. Entretanto, não deixa de causar espanto esta postura de parte da população, que sofre com os engarrafamentos e com a ausência de políticas públicas relacionadas à mobilidade, mas que não obstante endossa a política repressora. A esses, que nos atacam com vasos e palavras, com seus carros parados em estacionamentos e engarrafamentos, direcionamos nossa breve mensagem: quando nós, estudantes, vamos às ruas, reparamos a injustiça histórica que nos impede de viver esta cidade. Fazemos Justiça. Com todas as letras – o que nenhuma lei pode prescrever. Nas ruas – e só desta forma -, esta cidade, que é alheia a muitos de nós, inscreve-se em nossos corpos: torna-se efetivamente nossa. Nas ruas, fazemos história – a nossa história – o que sempre nos proibiram. Não temos medo das balas, nem dos vasos, nem dos batalhões – porque estamos juntos. E juntos fazemos nossa esta cidade.

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Woman Power

Sei que este blog é auto-biográfico, e costuma receber apenas textos meus. É uma coisa de egocentrismo mesmo – faz parte.

Dessa vez, porém, vou abrir uma exceção: publicarei um texto de dois companheiros do direito. Alguns devem saber: juntos, fazemos parte de um grupo oposicionista – carinhosamente chamado pela direita de “os comuna” – à política dois últimos dois anos do Centro Acadêmico XI de Fevereiro: o CA de Direito da UFSC. Apesar do afável apelido, gostamos de ser chamados de “Grupo Até o Fim – Sem Mais Delongas” (nomes de nossas chapas derrotadas nesses últimos dois anos, da qual nos orgulhamos). Nomes vão e vêm. O importante, mesmo, é o nosso projeto: um outro Centro Acadêmico (e movimento estudantil) é possível. Quem sabe outros posts possam debater essa perspectiva.

A contextualização do texto vai logo a seguir. Algo, no entanto, antes de lê-la, leitor, deve ser reparado: há algo de a-temporal nesse escrito. Não se precisa perder muito tempo (nem fritar muitos neurônios) para se entender o que está em jogo. Em suma: se você não é do Direito, nem da UFSC, não se preocupe: já aconteceu com você também.  Esse texto não transmite simplesmente o sentimento de indignação frente a um caso particular e pontual. Há algo de universal nele. Por isso mesmo que a leitura é, mais do que recomendável, obrigatória.

E meus parabéns pro Victor e pra Helena. O espírito do grupo falou por vocês.

—————————————————–

Caríssim@s:

Nos últimos dias, o CAXIF vem divulgando sua festa de final de semestre – que, a julgar pelo cartaz nos corredores e salas, contará com cerveja, churrasco, futebol e… dançarinas exóticas nuas. Em tom de brincadeira ou não, a mensagem é muito clara: mulheres são bem-vindas, mas para agradar aos homens que lá estarão – ou, para o bom uso dos termos consagrados: a objetificação da mulher.

Frente a isso, o Grupo Até o Fim – Sem Mais Delongas, assina o manifesto que segue.

Boa leitura (e boas reflexões!).

A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA BABAQUICE

É festa!

Responda, nobre colega: qual dos itens abaixo não pertence ao grupo?

A) Cerveja;

B) Churrasco;

C) Futebol;

D) Dançarinas exóticas nuas.

Caso uma visão de sociedade patriarcal já tenha sido naturalizada por você, caro interlocutor, temos o desprazer de lhe informar que a resposta correta é o item D). Como quem andou errando ultimamente foi o nosso (?) Centro Acadêmico (??) XI de Fevereiro, tecemos algumas considerações que julgamos pertinentes, as quais seguem.

Não, acadêmicos: a questão não é saber se, de fato, as tais dançarinas exóticas nuas estarão disponíveis na festa, tal qual a cerveja será open bar. Mas trata-se de questionar por que razão uma diretoria de Centro Acadêmico – composta, em mais de metade, por homens – sente-se no direito de divulgar uma festa listando, ao lado de artigos como “piscina” e “vodka“, mulheres. Trata-se de perguntar por que não se valer do espaço, dentro da Academia – esse ambiente que pretende compreender a realidade e buscar caminhos para transformá-la –, e fomentar o debate, em vez de exterminá-lo a golpes de machismo.

A resposta parece-nos bem clara. A mulher vista como produto de consumo não é novidade; o machismo de certos acadêmicos e acadêmicas, também não, assim como o patriarcalismo de nossas instituições.

Uma sociedade como a que vivemos desde cedo nos impõe papéis, de acordo com nosso sexo biológico, aos quais devemos respeitar para não sermos discriminados. Homens? Esses são viris, agressivos, competitivos, fortes, racionais, imponentes. Já às mulheres cabe que sejam belas, delicadas, frágeis, passivas, emocionais. Porque não se permite a elas que disputem, como sujeitos, galgar posições em nossa sociedade – não sem prejuízo, não tão facilmente.

É num contexto como esse – da mulher-objeto, da mulher-sexo – que se inclui nossa diretoria do CAXIF em seu papel de reproduzir – e, assim, legitimar – as opressões sexuais existentes. Uma infeliz brincadeirinha de divulgação é capaz de desvelar o que opera por trás da mentalidade da, como eles mesmos se intitulam, “crème-de-la-crème da sociedade catarinense”, e de revelar que não há um projeto real de Universidade que os mova, apenas a reprodução de condições e situações já postas. Não há discussão ou formação, somente o irrefreado desejo pelo dito empreendedorismo inconsequente, através do qual tudo vira mercadoria – inclusive pessoas.

Essa é a Universidade que queremos? Somos representados por um CAXIF a essa maneira? Desejamos viver em meio à miséria do pensamento e à mediocridade da ação que tão claros se revelam? Ou estamos decididos a construir uma nova sociedade?, em que às mulheres seja reconhecido o mesmo valor de qualquer outro ser humano, em que não sejam elas subjugadas a papéis opressivos, em que seja obsceno que as reduzam a objetos ou bens consumíveis de uma festa qualquer.

A construção de uma nova sociedade vai muito além dos debates de gênero, mas também passa por eles. De todo modo, ela não vai à frente contando com a postura irresponsável das pessoas mesmas que, por conta da própria instituição que ocupam, têm a possibilidade e a legitimidade para gerar o diálogo e a elaboração conjunta, com os estudantes, desse novo projeto de sociedade. Infelizmente.

Subscrevemos aqui, pela omissão e pelo descaso, nosso manifesto de repúdio à institucionalização da babaquice por conta de um CAXIF preconceituoso e despreparado.

Aos interessados no debate e na construção da universidade necessária, fica o nosso contato – e o nosso convite.

Grupo Até o Fim – Sem Mais Delongas – Nov/2009.

chapasemmaisdelongas@gmail.com

O povo de Honduras resiste ao golpe militar.

O povo de Honduras resiste ao golpe militar.

Quem me conhece, sabe que eu gosto de conversar com o pessoal que é de direita. Não é por aquele motivo clichê e hipócrita: “ah, se você me apresentar argumentos racionais, eu serei convencido”. Não. Isso não passa da hipocrisia mais deslavada. Só pode ser convencido aquele que coloca o seu interlocutor na posição formal do convencimento. Traduzindo: só é convencido quem quer se convencer. Já ouviram falar na história do “quem fala é tão importante quanto o que se fala?”. É exatamente assim que funciona. Já teve um cara chamado Hegel que falou sobre isso (a forma não se separa do conteúdo), mas isso é assunto pra um outro tópico. Por isso, ler o que a direita tem dito tem um sentido bastante específico: coletar argumentos para destruí-la. Simples assim.

Mas tem um outro motivo também. Como ser que pensa, e portanto existe, sempre tive uma certa dificuldade de adequação neste mundo. É natural que seja assim. Basta ter o tico e o teco para ver que, definitivamente, há algo errado no reino da Dinamarca. Nesse ponto, não precisa ser de esquerda para perceber. A direita que é de direita mesmo, também tem olhos – também tem princípios. Também defende ideias. Conclama, assim como nós da esquerda conclamamos, a Razão para si. Também diz estar do lado da Verdade, da Justiça, da Democracia e da Liberdade. A única diferença, lógico, é que eles estão errados (hehe). Não é isso, no entanto, que me impede de reconhecer uma determinada racionalidade e coerência em alguns de seus pensadores. A verdade verdadeira mesmo é que dá pra contar nos dedos as pessoas que eu conheço que são (e se assumem) verdadeiramente de direita. Ser de direita, no Brasil, pega mal. É feio. Por isso o respeito que nutro por aqueles que aceitam sair do armário – não é uma decisão fácil, não. A direita enrustida, aquela que se diz “de centro”, ou que “sempre foi simpática à esquerda”, mas que, na prática, defende o que há de mais conservador e retrógado nunca terá o meu respeito.

Não obstante, em determinados momentos da história isso não é possível. Essa minha tolerância respeitosa com a direita, de vez em quando, tem que ser substituída por outra coisa um pouco mais agressiva. É o caso do que tem acontecido em Honduras recentemente. Em momentos como esse, não há que se nenhuma papa na língua: a defesa do golpe feita pela grande mídia é um dos casos mais evidentes de mau-caratismo jornalístico que já tive conhecimento. De repente, o termo “governo de fato” foi substituído por “governo interino”, e começaram a pipocar no noticiário análises de “especialistas” falando que a “destituição” de Zelaya teria “cumprido dos os requisitos constitucionais”. Como diria o Riegel: só pode ser sacanagem.

Vamos aos fatos. No dia 28 de junho, em Tegucigalpa, militares hondurenhos, aproximadamente às 6 da matina, acordaram o Zelaya e o expulsaram do país. Vamos ver as notícias do período: a Folha, o New York Times, entre muitos outros dizem com todas letras: foi Golpe. Procurei alguma notícia da Veja no período mas, estranhamente, não encontrei nenhuma notícia relatando o ocorrido no seu índice – ainda era feio demais se posicionar a favor do golpe, por isso, entre falar bem do governo e ficar calados, é lógico que eles ficaram calados. Nesse momento, os fatos permaneciam cristalinos, e as manchetes eram categóricas. Alguns exemplos interessantes:

Diz o Editorial da Folha, no dia 30 de junho: “O Itamaraty acerta ao subscrever a condenação internacional à intervenção militar e pedir que Zelaya seja “incondicionalmente reposto em suas funções”. Ao mesmo tempo em que é divulgado a posição de Obama: “o golpe afirma terrível precedente na região”. Como cereja do bolo, na mesma data, dois dias depois do golpe, há uma entrevista com Enrique Ortez, membro do alto-escalão do governo golpista. Vale a pena dar uma olhada no que a Folha diz sobre ele. – “O recém-empossado ministro de Relações Exteriores de Honduras, Enrique Ortez, terá a tarefa mais difícil do novo governo do país: convencer o mundo de que não houve um golpe de Estado. Até ontem, nenhum país havia reconhecido a posse do presidente Roberto Micheletti.” O “ontem” ao qual o jornalista se refere é o 29 de junho. O nosso hoje, 4 de outubro de 2009, ainda não contém nenhuma nação desse mundo que reconhece como legítimo o governo golpista de Honduras – a não ser, é claro, a imprensa nacional.

Tudo mudou quando Zelaya, num ato de audácia e coragem, apareceu na embaixada brasileira. Subitamente, o que era inequívoco transfigurou-se. Sedentos por manchar a imagem do presidente, loucos por mais um factóide para ser usado na eleição do ano que vem, a mídia partiu para cima. O que, antes, representava uma postura correta, mudou completamente no exato momento em que o presidente legítimo de Honduras pisou na embaixada.

Lula teria “deixado a imparcialidade de lado”. O Brasil, sempre conhecido como hábil “mediador”, teria abandonado essa posição para estar do lado, agora, de um presidente constitucionalmente deposto. Começam a pipocar, na imprensa, argumentos que buscam legitimar o golpe militar no país da América Central. Não vou colar notícias aqui provando o fato: basta procurá-las. Merval Pereira, Sardenberg, Lúcia Hippolito, Alexandre Garcia e outros pareciam travar uma disputa sobre quem falaria mais asneira. Lucia dizia que “os apoiadores de Zelaya não davam comida para os servidores brasileiros da embaixada”, e que, por isso “estaria no melhor dos mundos”, e “poderia ficar lá para sempre”. Merval Pereira, com singular propriedade, defendia: “ora, trata-se de um governo legitimamente deposto, o que foi ilegal foi o exílio forçado de Zelaya”. Alexandre Garcia, não ficando atrás, bradava: “a embaixada parece um acampamento do MST!”

Enquanto isso, do outro lado do mundo, a revista Time elogia a política externa brasileira: “Still, because most analysts agree that the Honduras coup sends a dangerous signal to the region’s fledgling democracies, they feel that having Brazil’s respected heft thrown more directly into the mix could help negotiations. Says another source close to Lula, “I think the talks are evolving now that Zelaya is back and under our protection.” Pra quem não manja do english: eles tão dizendo aí que a maioria dos analistas concorda que o golpe em Honduras manda sinais negativos para a região, e que a postura do Brasil pode ajudar nas negociações. Tudo isso no dia 30 de setembro.

Ufa. Acho que acabei. Mas, afinal, por que tomei tanto tempo escrevendo tudo isso, nessa exaustiva tentativa de demonstrar a incoerência da mídia brasileira?

Porque, meus caros, como já disse em uma antigo post sobre a crise em Honduras, há um evidente perigo pousando sobre a América Latina. Os governos progressistas, que conquistaram acachapantes vitórias ao longo da década de noventa, e lograram êxito em instituir uma nova hegemonia na região, estão ameaçados. Há fortes indícios de que Honduras possa se tornar um modelo para o resto do continente.

Essa mesma imprensa que hoje aplaude os golpistas, que legitima através de falacias jurídicas um governo ilegítimo e impopular, é a mesma imprensa que aplaudiu o golpe militar brasileiro em 64. Aliás, o procedimento utilizado foi bastante semelhante. Expulsou-se o presidente, declarou-se a vacância do cargo no Congresso por meio de um documento falsificado, e institui-se a ditadura. A única diferença, já disse Marco Aurélio Garcia, assessor da presidência para assuntos internacionais, naquele simpático (mas reaça) programa da Mônica Waldowogel, está no fato de que Jango havia optado pelo exílio voluntário, enquanto Zelaya fora expulso com um fuzil em sua cabeça.

Os que se referem à Honduras como “República das Bananas” se esquecem de um pequeno fato: a linha que separa a América do Sul da América Central é muito mais tênue do que parece. A dinâmica da América-Latina é uma só. Fiquemos atentos.

Quem me conhece, sabe que eu gosto de conversar com o pessoal que é de direita. Não é por aquele motivo clichê e hipócrita: “ah, se você me apresentar argumentos racionais, eu serei convencido”. Não. Isso não passa da hipocrisia mais deslavada. Só pode ser convencido aquele que coloca o seu interlocutor na posição formal do convencimento. Traduzindo: só é convencido quem quer se convencer. Já ouviram falar na história do “quem fala é tão importante quanto o que se fala?”. É exatamente assim que funciona. Já teve um cara chamado Hegel que falou sobre isso (a forma não se separa do conteúdo), mas isso é assunto pra um outro tópico. Por isso, ler o que a direita tem dito tem um sentido bastante específico: coletar argumentos para destruí-la. Simples assim.
Mas tem um outro motivo também. Como ser que pensa, e portanto existe, sempre tive uma certa dificuldade de adequação neste mundo. É natural que seja assim. Basta ter o tico e o teco para ver que, definitivamente, há algo errado no reino da Dinamarca. Nesse ponto, não precisa ser de esquerda para perceber. A direita que é de direita mesmo, também tem olhos – também tem princípios. Também defende ideias. Conclama, assim como nós da esquerda conclamamos, a Razão para si. Também diz estar do lado da Verdade, da Justiça, da Democracia e da Liberdade. A única diferença, lógico, é que eles estão errados (hehe). Não é isso, no entanto, que me impede de reconhecer uma determinada racionalidade e coerência em alguns de seus pensadores. A verdade verdadeira mesmo é que dá pra contar nos dedos as pessoas que eu conheço que são (e se assumem) verdadeiramente de direita. Ser de direita, no Brasil, pega mal. É feio. Por isso o respeito que nutro por aqueles que aceitam sair do armário – não é uma decisão fácil, não. A direita enrustida, aquela que se diz “de centro”, ou que “sempre foi simpática à esquerda”, mas que, na prática, defende o que há de mais conservador e retrógado nunca terá o meu respeito.
Não obstante, em determinados momentos da história isso não é possível. Essa minha tolerância respeitosa com a direita, de vez em quando, tem que ser substituída por outra coisa um pouco mais agressiva. É o caso do que tem acontecido em Honduras recentemente. Em momentos como esse, não há que se nenhuma papa na língua: a defesa do golpe feita pela grande mídia é um dos casos mais evidentes de mau-caratismo jornalístico que já tive conhecimento. De repente, o termo “governo de fato” foi substituído por “governo interino”, e começaram a pipocar no noticiário análises de “especialistas” falando que a “destituição” de Zelaya teria “cumprido dos os requisitos constitucionais”. Como diria o Riegel: só pode ser sacanagem.
Vamos aos fatos. No dia 28 de junho, em Tegucigalpa, militares hondurenhos, aproximadamente às 6 da matina, acordaram o Zelaya e o expulsaram do país. Vamos ver as notícias do período: a Folha, o New York Times, entre muitos outros dizem com todas letras: foi Golpe. Procurei alguma notícia da Veja no período mas, estranhamente, não encontrei nenhuma notícia relatando o ocorrido no seu índice – ainda era feio demais se posicionar a favor do golpe, por isso, entre falar bem do governo e ficar calados, é lógico que eles ficaram calados. Nesse momento, os fatos permaneciam cristalinos, e as manchetes eram categóricas. Alguns exemplos interessantes:
Diz o Editorial da Folha, no dia 30 de junho: “O Itamaraty acerta ao subscrever a condenação internacional à intervenção militar e pedir que Zelaya seja “incondicionalmente reposto em suas funções”. Ao mesmo tempo em que é divulgado a posição de Obama: “o golpe afirma terrível precedente na região”. Como cereja do bolo, na mesma data, dois dias depois do golpe, há uma entrevista com Enrique Ortez, membro do alto-escalão do governo golpista. Vale a pena dar uma olhada no que a Folha diz sobre ele. – “O recém-empossado ministro de Relações Exteriores de Honduras, Enrique Ortez, terá a tarefa mais difícil do novo governo do país: convencer o mundo de que não houve um golpe de Estado. Até ontem, nenhum país havia reconhecido a posse do presidente Roberto Micheletti.” O “ontem” ao qual o jornalista se refere é o 29 de junho. O nosso hoje, 4 de outubro de 2009, ainda não contém nenhuma nação desse mundo que reconhece como legítimo o governo golpista de Honduras – a não ser, é claro, a imprensa nacional.
Tudo mudou quando Zelaya, num ato de audácia e coragem, apareceu na embaixada brasileira. Subitamente, o que era inequívoco transfigurou-se. Sedentos por manchar a imagem do presidente, loucos por mais um factóide para ser usado na eleição do ano que vem, a mídia partiu para cima. O que, antes, representava uma postura correta, mudou completamente no exato momento em que o presidente legítimo de Honduras pisou na embaixada.
Lula teria “deixado a imparcialidade de lado”. O Brasil, sempre conhecido como hábil “mediador”, teria abandonado essa posição para estar do lado, agora, de um presidente constitucionalmente deposto. Começam a pipocar, na imprensa, argumentos que buscam legitimar o golpe militar no país da América Central. Não vou colar notícias aqui provando o fato: basta procurá-las. Merval Pereira, Sardenberg, Lúcia Hippolito, Alexandre Garcia e outros pareciam travar uma disputa sobre quem falaria mais asneira. Lucia dizia que “os apoiadores de Zelaya não davam comida para os servidores brasileiros da embaixada”, e que, por isso “estaria no melhor dos mundos”, e “poderia ficar lá para sempre”. Merval Pereira, com singular propriedade, defendia: “ora, trata-se de um governo legitimamente deposto, o que foi ilegal foi o exílio forçado de Zelaya”. Alexandre Garcia, não ficando atrás, bradava: “a embaixada parece um acampamento do MST!”
Enquanto isso, do outro lado do mundo, a revista Time elogia a política externa brasileira: “Still, because most analysts agree that the Honduras coup sends a dangerous signal to the region’s fledgling democracies, they feel that having Brazil’s respected heft thrown more directly into the mix could help negotiations. Says another source close to Lula, “I think the talks are evolving now that Zelaya is back and under our protection.” Pra quem não manja do english: eles tão dizendo aí que a maioria dos analistas concorda que o golpe em Honduras manda sinais negativos para a região, e que a postura do Brasil pode ajudar nas negociações. Tudo isso no dia 30 de setembro.
Por que tomei tanto tempo escrevendo tudo isso, nessa exaustiva tentativa de demonstrar a incoerência da mídia brasileira?
Porque, meus caros, como já disse em uma antigo post sobre a crise em Honduras, há um evidente perigo pousando sobre a América Latina. Os governos progressistas, que conquistaram acachapantes vitórias ao longo da década de noventa, e lograram êxito em instituir uma nova hegemonia na região, estão ameaçados. Há fortes indícios de que Honduras possa se tornar um modelo para o resto do continente.
Essa mesma imprensa que hoje aplaude os golpistas, que legitima através de falacias jurídicas um governo ilegítimo e impopular, é a mesma imprensa que aplaudiu o golpe militar brasileiro em 64. Aliás, o procedimento utilizado foi bastante semelhante. Expulsou-se o presidente, declarou-se a vacância do cargo no Congresso por meio de um documento falsificado, e institui-se a ditadura. A única diferença, já disse Marco Aurélio Garcia, assessor da presidência para assuntos internacionais, naquele simpático (mas reaça) programa da Mônica Waldowogel, está no fato de que Jango havia optado pelo exílio voluntário, enquanto Zelaya fora expulso com um fuzil em sua cabeça.
Os que se referem à Honduras como “República das Bananas” se esquecem de um pequeno fato: a linha que separa a América do Sul da América Central é muito mais tênue do que parece. A dinâmica da América-Latina é uma só. Fiquemos atentos.
Não deu pro Obama

Não deu pro Obama

Eu sei que vocês devem estar tristes porque este blog está meio abandonado. A verdade é que, com o início das aulas, não tenho lá encontrado muito tempo para atualizá-lo – a preguiça andava forte. O ócio, que nas férias foi tão produtivo, não tem encontrado lugar nesse semestre tão atabalhoado de estágio e tantas disciplinas. Nessa semana foi diferente: o impulso narcisístico de escrever e ser lido foi mais forte que a indolência.

Os últimos acontecimentos são por demais instigantes intelectualmente que a ânsia por voltar à ativa na militância internética floresceu novamente. Tudo começou com Honduras e o risorgimiento da direita brasileira, que mostrou sua verdadeira face: os caras realmente gostam de um golpe militar. Os últimos editoriais dos maiores jornais, e os recentes comentários de colunistas do mainstream jornalístico são dignos de junho de 1964 – o mau caratismo impera soberano (sim, basta fazer uma comparação com os grandes meios de comunicação internacionais). Mas, com todo o respeito que Zelaya merece, ainda que o desprezo que tenho pela mídia brasileira necessite de um canal de escape, talvez não seja esse o momento. O que me trouxe até este blog foi outra coisa: o feito histórico do Rio de Janeiro na Dinamarca. Há muito tempo (talvez só o inigualável gol do Pet no tri-carioca, em 2001) não me sensibilizava dessa maneira.

Alguns devem estar se perguntando: como assim, Fernando? Logo você, que se acha tão crítico, tão de esquerda, tão contra o senso-comum, vai apoiar uma candidatura como essa, que vai gastar bilhões enquanto o Brasil continua com milhões de miseráveis?

Sim, meus caros, sou um entusiasta da candidatura da Cidade Maravilhosa – ao contrário de tantos brasileiros, imersos no fundado receio da corrupção, e da necessidade de construção de outras prioridades, para além das Olimpíadas. Não vou perder muito tempo na defesa do Rio – até porque este não é o ponto mais difícil de se contrapor. Todo real gasto – seja ele público ou não – representa um investimento. Voltará aos cofres públicos por meio de impostos. Isso significa que um aparente gasto exorbitante representa um retorno da mesma magnitude.

Melhor: é a oportunidade do sempre protelado acerto de contas histórico do Brasil com o povo do Rio de Janeiro. Neste ponto, Lula foi fantástico. De uma cidade que já foi o capital do País (ver qualquer entrevista dele após o resultado), a representação sintética do espírito brasileiro, o Rio hoje figura como o espaço da falcatrua, do tráfico e malandragem. De centro cultural e político, passou a ser a cidade o brizolismo – por isso, boicotada pelos militares. As Olimpíadas são a oportunidade da cidade mais bonita do Brasil ressurgir para nós e para o mundo – repensar o seu saneamento, despoluir a lagoa Rodrigo de Freitas, construir um transporte público eficiente. Por incrível que pareça, isso terá um impacto em todo o território nacional. A construção de uma identidade brasileira também passa pela reascenção dos cariocas.

É justamente este o ponto ao qual quero chegar. Ninguém tem a ilusão de que uma Olimpíada pode pôr fim a todas as mazelas de uma nação ou cidade (nós sabemos, não é? para isso temos a revolução socialista). No entanto, se há um legado que pode ser deixado pelo evento é o fim do complexo de vira-lata brasileiro – a colonização. Não, não: não quero que construamos a noção do “Brasil Potência” tão caro aos conservadores, e funcional para a opressão de nossos irmãos latino-americanos. Falo de um outro aspecto, talvez mais sutil: o enaltecimento de nossa cultura, de nossos hábitos, como espaço de reconhecimento e ligação entre todos nós. Sim, eu falo dos clichês: do futebol, samba e alegria. Eu falo da solidariedade entre aqueles que pouco ou nada têm. Falo da nossa música, que remete aos nossos antepassados – e por isso é insubstituível -, e que vem sendo sumariamente mutilada ao longo dos tempos, por gravadoras cujo único objetivo é o lucro. Não falo das “belezas naturais incomparáveis” – isso já seria demais. Falo de nossa cultura em sentido amplo, falo daquilo que nos identifica como povo brasileiro, ainda um vir-à-ser. Falo daquilo que nos fará largar o olhar para o além-mar, para passar a observar a nossa realidade latino-americana.

Se o Brasil sempre se fez Brasil a partir da submissão ao olhar europeu – essa noção de que sempre fomos um povo vagabundo e preguiçoso – talvez seja esse o momento de inversão. Surge, aí, a oportunidade da virada. É hora de virarmos os olhos para o nosso País, para o nosso continente. Se é bonito ter um doutorado na França, que seja ainda mais bonito pensar as grandes questões brasileiras e ser reconhecido por seus pares por sua contribuição à nação. É, sem dúvida, um passo mísero na construção da soberania – mas, não tenho dúvidas, é um passo certeiro.

Cumbuca do senado à esquerda: fechada para o povo.

Cumbuca do senado à esquerda: fechada para o povo.

Hoje é sexta-feira. Dia de ler Fernando Gabeira e José Sarney na Folha de São Paulo. Dessa vez, não foi o Gabeira quem me encheu o saco: foi o Sarney – o cara do bigode, como o nobre leitor pode ver alguns posts abaixo. Não é dia de falar de Sarney, no entanto. Como já disse, o Sarney é figura batida. Falar mal dele não tem a menor graça. Ainda mais quando ele perde linhas de seu texto caluniando o velhinho simpático da foto que ilustra este blog (o carequinha estudioso ali de cima, pra quem não sabe, é o nosso amigo Lênin).

O que me surpreendeu no texto de hoje, contudo, foi a clareza do Gabeira. Eu vou me repetir, mas este ponto é realmente importante: o ex-comuna é um cara que tem uma concepção de política muito pertinente. No atual quadro político, em que predomina o amplo fisiologismo e oportunismo, alguém com mínimas noções programáticas (ainda que noções de direita) são, no mínimo, respeitáveis. Não é muito fácil encontrar alguém com essas características: no nosso tempo, qualquer noção de “projeto político” parece estar mais associada a uma enlouquecida e vaidosa luta por aglutinação de poder, do que propriamente a construção de um horizonte na direção da qual se caminha. Não me admira a grande descrença na política, hoje, por parte da juventude. Eu, se não fosse marxista, pensaria o mesmo.

O Gabeira é diferente. Por isso ele merece o meu elogio. A rasgação de ceda, porém, fica por aqui. Ele ainda é um reaça, e os reaças, ainda que simpáticos, devem ser combatidos – pero sin perder la ternura jamás.

Hoje, o deputado dedicou sua coluna à necessidade de uma segunda onda democrática do nosso país. Reparem o potencial emancipador da formulação do Gabeira:  qualquer espécie de ampliação da democracia (dar voz aos que não têm voz, dar parte aos que não têm parte) é, para a esquerda, um avanço substancial. O nosso amigo, porém, bate em seus próprios limites teóricos: é evidente que essa “democracia” dele não significa dar todo o poder para el pueblo. O “avanço da democracia” para ele, é a brochante “maior transparência na esfera pública”.

É lógico que não dava para esperar muita coisa de um artigo da Folha de São Paulo. Mas, há muito, eu espero por alguém fazer uma análise um pouquinho robusta da crise do Senado e suas saídas- e ainda não encontrei em lugar algum. Eu já dei os meus pitacos. Falei que essa crise é uma baboseira, que é hora de “colocar outras questões”, que tá “todo mundo errado” e que o “buraco é mais embaixo”. O que mais me surpreende, no entanto, é que a solução da crise do Senado nunca esteve tão evidente, tão cristalina (ou “hialina” em juridiquês).

Ora, num país em que, segundo a Miriam Leitão e o Sardenberg, apenas aumenta os seus gastos estatais para cabides de emprego. Em que a a máquina pública só cresce e se burocratiza o que-impulsiona-a-necessidade-de-aumento-dos-impostos-para-manter-a-arrecadação-e-força-manutenção-da-taxa-de-juros-em-níveis-elevados, por que será que ninguém nunca pensou em cortar o mal pela raiz?

Será que é tão absurda assim a ideia de pôr fim ao Senado? Será que alguém que me lê saberia dizer para quê serve esse aparato monstruoso de Renan Calheiros e José Sarney? Vejam só a maravilha: vocês conseguem imaginar os bilhões que serão poupados só em gastos com pessoal, sem contar com os outros gastos? Mais do que isso: teríamos uma regime unicameral que deveria prestar contas permanentemente à população. Isso passa longe do socialismo, mas é lógico melhoraria a vida de todo mundo.

Pelo jeito, no entanto, não há muitas forças políticas capazes de levantar essa bandeira muito longe.

É uma pena.

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Drummond, Mãos Dadas

Chinese Democracy

Chinese Democracy

Dizem por aí que o século XX teve um vencedor. Após um intenso conflito de organizações sociais distintas e antagônicas, a queda do muro de Berlim teria consagrado um determinado modelo de estrutura social. O livre mercado, a garantia das liberdades individuais e, enfim, a democracia surgiriam como a grande utopia de um mundo que perdeu as ilusões, um mundo que teria superado a baboseira do socialismo. Durante a década de 90, nos anos de ouro da era Clinton, a sociedade realmente parecia ter encontrado, enfim, o “paradigma ideal” da sociedade. Não demorou muito para que esse castelo de cartas caísse. Só nos resta enfrentar os seus escombros.

Se os atentados de 11 de setembro indicaram para muitos que algo estava errado, a recente crise foi a última pá de cal em quem ainda tinha alguma fé na utopia liberal. Se esses mesmos estivessem só um pouquinho mais atentos, perceberiam que aqui na América Latina e acolá no resto do mundo, há muito pipoca a indignação e a miséria. As promessas não cumpridas do discurso liberal deram força para a ascensão de líderes populares que ousaram questionar o modelo único em todo o globo.

Ainda assim, o nosso velho amigo capitalismo (sim, ele tem um nome) tá por aí. Para piorar: não há muitos indícios de que esses governos progressistas tenham avançado muito na construção de uma ordem “para além do capital”. Em contra-partida, os EUA e a Europa – esses baluartes dos direitos individuais, sociais, da liberdade e da democracia – parecem demonstrar claros sinais de que têm sofrido fortemente os efeitos da crise. No meio de tudo isso, surge um dragão crescente passando por cima de tudo. Esse dragão se chama China.

E não tem essa: para a China, não rola toda essa história de “dignidade da pessoa humana”; “direitos fundamentais”, “liberdade”; “democracia”, “liberdade de expressão” e pá pá pá. Se há revoltas populares, os chineses matam mesmo – vide Praça da Paz. Eles não têm vergonha de pagar um salário miserável para os seus trabalhadores – é muito melhor ser um trabalhador miserável, do que um miserável sem trabalho. Ainda assim, se há um motivo para o Ocidente desconfiar da China, o motivo se encontra justamente nessa “falta de democracia” do país. A pergunta é: isso é um problema para quem?

Ora, meus caros: bem, observando do ponto de vista do Mercado (com M maiúsculo mesmo), os investidores não têm muito o que reclamar. A China é praticamente uma garantia de satisfação garantida. Brasil, EUA e até a Europa tão surfando na onda do crescimento chinês. Enquanto nós, aqui desse lado do Hemisfério amargamos uma desaceleração geral, a China cresce a inacreditáveis 8%. Isso deve significar alguma coisa.

Não. Eu não vou dissertar acerca do desenvolvimento chinês – até porque eu não saberia fundamentá-lo. Não li muita coisa sobre isso. Mas, talvez, somente talvez, o significado da ascensão da China seja este: e se o modelo “liberal-democrático” não for mais o melhor? E se essa história de ditadura, regime de partido único, se configurar como a melhor saída para os mercados? (como, aliás, tem ocorrido nos últimos anos)

Sendo assim, a pergunta do dia seria: e se a China realmente der certo como andam dizendo e engolir todo mundo? O que acontece?