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Sem medo de ser feliz, uma verdadeira Bíblia.

Sem medo de ser feliz, uma verdadeira Bíblia.

A crítica preliminar ao Gabeira parece que fez algum efeito. Além de elogios recebidos (que sempre bem fazem ao massagear o ego) o número de acessos do meu blog estreiante bateu recorde. Com o Ibope alto, não há motivo para mudar de assunto. Ademais, temos alguns pontos da crítica gabeiriana à esquerda que merecem uma maior atenção.

Uma crítica interessante – muito comum em textos do Deputado Gabeira – é a que contrapõe a esquerda marxista ao mais primitivo fanatismo religioso. As críticas mais fervorosas da direita à esquerda revolucionária, em geral, não deixam de abordar as estranhas relações entre o socialismo e a religião. Munidos de sua própria bíblia (O Capital), estariam os marxistas fadados a meramente reproduzir um discurso baseado na adoração de um messias: Karl Marx.

Dessa forma, nós, marxistas, não passaríamos de mais uma entre tantas outras seitas religiosas. Todas aquelas características bárbaras da intolerância, falta de senso crítico e extremismo seriam, portanto, características nada mais do que naturais ao pensamento que se diz tributário do legado marxista. A tragédia do século XX, enfim, seria consequência necessária deste pensamento de raízes totalitárias: o fracasso da U.R.S.S., Cuba, China, Vietnam, Coreia do Norte e outros seriam o efeito inexorável das falsas promessas – numa comparação tosca, o socialismo seria o paraíso com 40 virgens dos muçulmanos.

Assim, a direita liberal impõe aos marxistas um rótulo intransponível. E é aquela coisa, depois que te rotulam não há mais escapatória, não há mais muito que ser feito. Podemos apresentar uma série de argumentos mostrando o caráter laico do marxismo, a sua abertura, a sua condição de absolutamente necessário questionamento das próprias bases que assentam o seu pensamento e tudo mais. Porém, é só abrir a Folha de São Paulo nas sextas-feiras, que, ainda assim, vai ter um ou dois liberais falando aquilo tudo – é como aquele apelido que você não gosta, quanto mais ele lhe incomoda, mais força terá entre a rapazeada interessada em te sacanear.

Não quero entrar num debate filosófico mais profundo, mas talvez seja a hora de rever alguns conceitos – inclusive nós, marxistas. E, se, por um acaso, a estrutura de qualquer pensamento não esteja distante do pensamento religioso? E se a lição dos pós-modernos a ser admitida seja exatamente essa: não há nenhuma garantia na veracidade do pensamento, e não há nenhuma garantia de que estamos certos. Não é verdade quando falamos que um apelido não pode ser repelido. Só há uma forma de fazê-lo: assumir o apelido como nosso.

Para ser muito direto: e se a única saída a esse impasse for assumir o caráter teológico do marxismo? Não pode ser surpresa para ninguém o fato de que para se acompanhar a linha de raciocínio de um marxista, não se pode partir de uma posição indiferente. Há uma necessária postura de engajamento. Somente quem está disposto a dar um determinado salto sem garantia alguma pode começar a compreender Marx. Podem chamar esse “salto” de fé, quem quiser – não me incomoda.

É lógico que não convém admitir o caráter teológico assim tão abertamente, no mundo em que vivemos (até mesmo para os cristãos, a crença em Deus é uma decorrência da Razão, não uma questão de fé). Para contrapor essas críticas toscas ao marxismo (para contrapor Gabeira e cia.) , no entanto, elas são de suma importância. Não me admira serem os divulgadores das mensagens de tolerância, esperança, respeito e da paz mundial os legitimadores de fato da ordem social caótica em que vivemos. É em nome da democracia que os E.U.A. invadiram o Iraque. Foi em nome da “ordem democrática” que os militares tomaram o poder na América Latina.

Como Gabeira, muitos que chegam aos 40 se arrependem de seu percurso e mudam de lado nas trincheiras. Provavelmente, devem ter se “desiludido” com o pensamento marxista, ou com a política emancipatória. Por isso tamanho rancor com os que permanecem na esquerda. Os liberais dissidentes não podem perdoar Marx: ele deixou de ocupar o papel que reservaram a ele. Assim como o adolescente, que um dia amanhece de mal com Deus pelo fato do mesmo não existir, procede a direita des-esquerdizada.

É hora de romper as ilusões de um efetivo pensamento de esquerda. Só assim evitaremos outros Gabeiras.

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Ô, Gabeira! O que é isso, companheiro?

Ô, Gabeira! O que é isso, companheiro?

No meu twitter, há algum tempo atrás, dediquei uns dois ou trés ‘twits’ ao ilustre ex-comuna-sequestrador-de-embaixador-estadounidense Fernando Gabeira. Não consegui me expressar muito bem naquela ocasião. Quem sabe com um post as coisas mudem.

Como de praxe entre a rapazeada que abandona as trincheiras de la revolución, o deputado precisa, a todo momento, mostrar que “está recuperado”. Na Folha de São Paulo, em sua coluna semanal – ao lado do nosso conhecido colega José Sarney -,  é muito comum ver Gabeira fazer alusões às “ameaças totalitárias do marxismo”, às “falsas promessas da estrela vermelha” e coisa e tal. (Para o imaginário coletivo, se o Sarney é o anjo do mal, o Gabeira é um demônio ao contrário: saiu nono círculo do inferno direto para o céu da direita.) Até aí tudo bem. Tranquilo. Hoje, porém, ele me encheu o saco.

O Gabeira não é um político comum. Não é corriqueiro. Ele, admito, tem estilo. Não representa o arcaico nem o anacrônico como o Sarney. Não está no mesmo nível que a direita comum: é o que há de mais sofisticado e desafiador no discurso liberal. Longe dos estereótipos, não carrega com ele o arquétipo fascista comum aos reacinhas que encontramos por aí. É tolerante, democrático, anti-extremismos.. enfim, tudo de bom.

Lógico que não.

Se é hora – como diz Gabeira – de os “marxistas assumirem as consequências de seu pensamento”, talvez seja o exato momento da rapazeada da liberal-democracia assumir também – Gabeira incluso. E, não, meus caros: não vou falar da “fome, da miséria, que se alastra pelo terceiro mundo”. Isso todo mundo sabe. Penso em algo um pouco mais sutil e menos evidente. Os Capitães Nascimento da vida como consequência do discurso “da tolerância”. Explico.

Hoje em dia, é muito comum abrir um jornal e ver o pessoal da direita defender fervorosamente os “direitos humanos, a dignidade da pessoa humana, o Estado Democrático de Direito e coisa e tal”. E é isso o que tem que ser feito mesmo. O que há de se matutar, no entanto, não é apenas o que dizemos: mas tudo o que subjaz todo o nosso discurso. Aquela hipocrisiazinha básica e necessária para a sobrevivência de cada um. A gente sabe que os “direitos humanos nunca valerão para todo mundo, e que alguns são mais iguais que os outros”, mas falar isso é bonito, e acalma o nosso coração. Para ficar claro: subjetivamente, nenhum de nós acreditamos que poderemos viver efetivamente um mundo de paz, objetivamente, no entanto, há uma impressão geral da população de que deveríamos garantir a vida digna a todos – de que essa opinião é a única aceitável.

E não é a mesma coisa que acontece com a democracia? Quantos de nós acreditamos nos políticos? Quem atravessou o mar da internet para chegar a esse blog poderia dizer que poria um ente querido nas mãos de um senador no nosso país? Suponho que não. Ao mesmo tempo, porém, há um consenso geral de que a democracia é, evidentemente, o menos pior dos regimes. E o pior: qualquer um que tentar tirar esse suposto véu, falar que a tal da democracia é uma farsa, será imediatamente chamado de ditatorial, vermelho ou chato-feio-e-bobo. O que pensamos no nosso íntimo, grande parte das vezes, sequer é comentável com o colega ao nosso lado. Temos uma reputação a zelar, não é  mesmo?

cidadão-de-bem de direita pode dar aqueles belos discursos acerca da irracionalidade da pobreza e da miséria justamente porque há certas coisas impronunciáveis que acontecem por aí, e assentam o terreno para que ele faça durma tranquilo. Todo mundo sabe que a favela tá tomada, que nego sobe lá pra matar arbitrariamente – e isso acontece todos os dias. Ninguém precisa ser nenhum gênio para saber que, no Brasil, quem vai para a cadeia não tem dinheiro, e que o Código Penal só é ativado quando convém – a gente chama um cara tipo o Batman, ou o Capitão Nascimento e, pronto, estamos salvos. Nós, porém, podemos fingir que nada disso está acontecendo: a água nunca bateu na nossa bunda, certo?

A pergunta que fica, porém, é: e se, por um mísero acaso, uma contingência do destino, o limiar entre os “meliantes” e o “cidadão de bem” se perdesse? E se, de repente, não pudéssemos mais discernir quem é “uma ameaça”, e quem é “um cidadão comum”?

O que aconteceria?

PS: eu tinha mais coisa a falar a respeito do Gabeira e o texto dele, mas esse post já tá grande. Fica pra próxima.

Dow Jones - Batimento cardíaco do capitalismo

Dow Jones - Batimento cardíaco do capitalismo

A vida não parece estar mais tão dura para os altos investidores de Wall Street (Atenção: não estou falando dos médios nem dos pequenos). Vejam só que interessente: em outubro do ano passado – há menos de um ano atrás, portanto -, o castelo de cartas do capitalismo parecia, enfim, se desmantelar. A tal da crise-estrutural-do-capital havia chegado para varrer o mundo inteiro e abria as portas para uma nova ordem mundial. Por um instante, confesso, até eu acreditei.

Se antes, apregoavam os liberais, o problema do mundo estava todo no “protecionaismo, na falta de liberdade dos mercados, na burocratização e ineciência estatal…” , subitamente parece que a coisa toda mudou – para deixar tudo como está, é claro. O homem do mal que se chamava Estado saiu do casulo e, da noite pro dia, se transformou no melhor amigo de um cara chamado Mercado, que evidentemente é bonito, loiro e muito moderno.

Nessa brincadeira, ninguém ficou de fora. A crise ameaçou o Mercado que, apesar de loiro, bonito, odiaro outro bofe, e coisa tal, não teve outra escolha a não ser ser socorrido pelo Estado. Aí que entra a ironia: certo dia, o Estado foi de gata borralheira a Cinderela e o Mercado foi de velho-rico a pedinte . O CitiBank é a maior prova disso: o mesmo banco que mandava e desmandava na negociação da dívida externa latino-americana nos anos 80, é um dos que, hoje, adivinhem, se beneficiou da ajuda bilhonária concedida pelo governo estado-unidense. Fantástico, não?

Estima-se algo em torno de alguns trilhões (se me pedirem pra colocar em números essa grana, nem eu vou saber) de dólares a “ajuda” ao sistema financeiro. Ah, sim, eu poderia colocar aqui uma comparação entre o valor necessário para se acabar com a fome no mundo em relação a essa ajudinha. Mas isso é muito clichê. Também poderia dizer: “vejam o absurdo! usaram a sua grana pra saldar dívida de banqueiro! Quando é o ‘cidadão comum’ quem teve, ele não tem esse arrego”. Mas também não quero.

Sabem por quê? Porque um desses bancos gigantescos e xinfrins por aí – um tal de Goldman Sachs – anunciou essa semana que, após quase ir à falência, através da ajuda de custo do north american government, elevou seu lucro em, nada mais nada menos que 89% em relação ao primeiro trimestre desse ano. A brincadeira rendeu quase 5 bilhões de reais líquidos – excluídos o empréstimo do governo.

E não. Também não estou aqui pra dizer, somado ao coro comum: da velha história da “socialização do preju”. Isso é coisa que até a Miriam Leitão e seu amiguinho Sardenberg diriam.

Escrevo esse texto porque não há nada que tenha ocorrido ao longo dessa crise que não ocorra em outros momentos menos extraordinários. Quando empresas (ou bancos) grandes vão à falência, o Estado vai lá e as socorre. Essas mesmas empresas que reclamam dos impostos, das leis trabalhistas, da burocracia, do perfume e da cor do esmalte do Estado. Desde 1835 as coisas são assim, e não é hoje, porque tem um Negro na presidência dos States que as coisas vão mudar.

Minha senhora, num modelo de organização social chamado capitalismo, é assim que as coisas funcionam. Quem reclama vai continuar a reclamar, e quem se aproveita vai continuar a se aproveitar. Quem gostou, belê. Quem não gostou, junte-se a nós. Porque, no fim das contas, a dona de casa é quem paga a conta. Você paga, mas quem sente a crise você sequer chega a ver – está nos guetos, definhando.

Mas, tudo bem, né? Você, que me lê, deve ter a sua casa, sua cama, sua faculdade, sua família feliz e patati e patatá. Provavelmente não deve ter muito o que se preocupar. Afinal, a pobreza jamais poderá alcançá-lo.

Será mesmo?

Sarney, com seu bigodinho torto e uma bonita gravata borboleta.

Sarney, com seu bigodinho torto e uma bonita gravata borboleta.

Quem lê jornais (no Brasil eles são de tanta má qualidade, que pouquíssimos entre nós os lêem) deve estar por dentro: a crise do senado tá pegando fogo.  Se desde o início do ano pipocavam por aí denúncias por todos os cantos, parece que hoje elas foram plasmadas no personagem ideal: José Sarney.

O Sarney é um desses políticos clássicos do imaginário coletivo tupiniquim. Ex-presidente, membro da academia brasileira de letras, representante do velho coronelismo no Maranhão. Enfim, a personificação daquela política privatista, de concessão de privilégios, alheia à lógica republicana e coisa e tal. Sarney é um alvo fácil. E, sinceramente, quando há consenso demais, o santo desconfia – o sistema político brasileiro, definitivamente, deve estar com algum problema.

E, não, senhora dona de casa: o problema não se reduz à “mania do brasileiro de passar por cima das leis”, ou “do velho jeitinho”, ou da “cultura da malandragem”. Senhoras e senhores, lamento dizer que o buraco é mais em baixo. Não basta dizer que temos políticos corruptos. Não basta dizer que ninguém tem salvação. Não basta falar, na sua conversa com seu tio, que você queria que Brasília fosse pelos ares. As questões são outras.

Talvez tenha chegado a hora, definitivamente, de uma postura um pouco mais radical (para os leigos, radical não tem nada a ver com um barbudo munido de um coquetel molotov. Vem do latim radic, que remete às raízes, à essência). Talvez, quem sabe, seja o momento de se perguntar: ora, por quê será que um cara como o Sarney tem seu lugar no nosso sistema político?

Eu sei que é legal falar mal de políticos. Alivia a tensão. Vende jornais. As revistas conseguem mais assinantes e coisa e tal. Além disso, é bonito falar mal do bigodudo. Pega bem. Faz a gente pensar que tá do lado do bem e pá pá pá – afinal, ele é a representação do século XIX enquanto nós, classe média letrada, temos acesso ao conhecimento, à internet, e outras coisas modernas. No entanto, meu povo, enquanto a pergunta ali de cima não for respondida, um Sarney vai passar, vai chegar outro, e depois outro e depois um outro – talvez esse seja odioso o bastante pra que a gente fale bastante mal, como fazemos agora, para aliviar a tensão – e não é bem isso o que a gente quer, né? Ou não?

Militar hondureño caminha pelas ruas de Tegucigalpa

Militar hondureño caminha pelas ruas de Tegucigalpa

Os próximos dias devem ser cruciais para o futuro do país com mais golpes de Estado na América Latina – e olha que a concorrência é grande. Após uma semana de intensa mobilização e tentativas de acordo, parece que Honduras chegou de vez a um impasse insuperável. As instâncias diplomáticas foram esgotadas, e qualquer espécie de consenso pacífico parece não ser mais possível no país da América Central.

Pros próximos dias, junto com a volta de Zelaya – o presidente democraticamente eleito – podemos esperar uma batalha sangrenta nas ruas hondureñas. O chamado às ruas já foi feito. O ultimato já foi dado. Não há mais o que ser feito a não ser esperar (e torcer) para que o povo de Honduras retome as rédeas de seu destino.

Chama a atenção o contexto no qual esse golpe aconteceu: a completa rejeição internacional do ataque às instâncias democráticas de Honduras contrasta com o contexto militarizado dos anos 60. Ainda assim, é evidente que a simples pressão internacional não é o suficiente para reestabelecer um presidente. A ambiguidade da política norte-americana deve ser avaliada com o mesmo cuidado. Se Obama parece acenar com o repúdio ao golpe efetuado, na prática, a política dos E.U.A. não é tão amena quanto apregoam. Que Obama não é Bush, isso ninguém duvida. Mas, por mais simpático que seja, Obama continua o commander-in-chief do maior império da face da Terra. Esse detalhe é importante.

No mais, não podemos cair na besteira apregoada por aí: “ah, Honduras é apenas mais uma república de bananas”. Se há uma lição a ser tirada dos últimos acontecimentos na América Central, é que há um risorgimento da direta na latinoamerica – o que hoje pode ser um caso pontual, daqui a alguns anos pode se configurar numa tendência. Que Chávez, Correa e Evo fiquem de olho. Acabou a moleza. Os próximos anos serão fundamentais para uma avaliação dessa onda nacionalista-revolucionária no nosso continente. O tal do projeto do socialismo do século XXI estará em jogo.

where_to_beginA pergunta mais óbvia da apresentação, sem dúvida, deve ser: o que diabos eu, Fernando, estou fazendo por aqui?

A resposta é clichê mas não poderia ser outra: estou aqui para emitir meus pensamentos nesse buraco negro internético que é a blogosfera. Aos poucos, vou soltando minhas mensagens dentro de garrafas nesse oceano que é a internet – quem sabe, algum dia, a mensagem alcance o seu destino.

Nesse ponto não tenho nada de especial: com esse objetivo, sou apenas eu e a torcida do Flamengo.

Porém, há algo que me motiva, além de falar para o vazio: não tem como negar, há algo de novo por aqui ou acolá. Talvez seja pretensioso demais falar que a internet traz, em si, uma espécie de “espírito do nosso tempo”, mas essa história toda de Blogs, de Youtube, de podcasts, de Twitter e o diabo a quatro traz certas coisas com as quais ainda não estamos – principalmente nós, da esquerda – totalmente preparados para lidar. As possibilidades são infinitas, e o trabalho está só começando.. A verdade verdadeira mesmo é que não sei onde tudo isso vai dar.

Por enquanto sou apenas mais uma mosca – talvez uma mosca um pouco mais vermelha que as outras – a importunar os conformados, nessa obstinada construção daquilo que chamamos de “Novo”. Em breve seremos muitas mais, pode apostar.