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Posts Tagged ‘Democracia’

Cumbuca do senado à esquerda: fechada para o povo.

Cumbuca do senado à esquerda: fechada para o povo.

Hoje é sexta-feira. Dia de ler Fernando Gabeira e José Sarney na Folha de São Paulo. Dessa vez, não foi o Gabeira quem me encheu o saco: foi o Sarney – o cara do bigode, como o nobre leitor pode ver alguns posts abaixo. Não é dia de falar de Sarney, no entanto. Como já disse, o Sarney é figura batida. Falar mal dele não tem a menor graça. Ainda mais quando ele perde linhas de seu texto caluniando o velhinho simpático da foto que ilustra este blog (o carequinha estudioso ali de cima, pra quem não sabe, é o nosso amigo Lênin).

O que me surpreendeu no texto de hoje, contudo, foi a clareza do Gabeira. Eu vou me repetir, mas este ponto é realmente importante: o ex-comuna é um cara que tem uma concepção de política muito pertinente. No atual quadro político, em que predomina o amplo fisiologismo e oportunismo, alguém com mínimas noções programáticas (ainda que noções de direita) são, no mínimo, respeitáveis. Não é muito fácil encontrar alguém com essas características: no nosso tempo, qualquer noção de “projeto político” parece estar mais associada a uma enlouquecida e vaidosa luta por aglutinação de poder, do que propriamente a construção de um horizonte na direção da qual se caminha. Não me admira a grande descrença na política, hoje, por parte da juventude. Eu, se não fosse marxista, pensaria o mesmo.

O Gabeira é diferente. Por isso ele merece o meu elogio. A rasgação de ceda, porém, fica por aqui. Ele ainda é um reaça, e os reaças, ainda que simpáticos, devem ser combatidos – pero sin perder la ternura jamás.

Hoje, o deputado dedicou sua coluna à necessidade de uma segunda onda democrática do nosso país. Reparem o potencial emancipador da formulação do Gabeira:  qualquer espécie de ampliação da democracia (dar voz aos que não têm voz, dar parte aos que não têm parte) é, para a esquerda, um avanço substancial. O nosso amigo, porém, bate em seus próprios limites teóricos: é evidente que essa “democracia” dele não significa dar todo o poder para el pueblo. O “avanço da democracia” para ele, é a brochante “maior transparência na esfera pública”.

É lógico que não dava para esperar muita coisa de um artigo da Folha de São Paulo. Mas, há muito, eu espero por alguém fazer uma análise um pouquinho robusta da crise do Senado e suas saídas- e ainda não encontrei em lugar algum. Eu já dei os meus pitacos. Falei que essa crise é uma baboseira, que é hora de “colocar outras questões”, que tá “todo mundo errado” e que o “buraco é mais embaixo”. O que mais me surpreende, no entanto, é que a solução da crise do Senado nunca esteve tão evidente, tão cristalina (ou “hialina” em juridiquês).

Ora, num país em que, segundo a Miriam Leitão e o Sardenberg, apenas aumenta os seus gastos estatais para cabides de emprego. Em que a a máquina pública só cresce e se burocratiza o que-impulsiona-a-necessidade-de-aumento-dos-impostos-para-manter-a-arrecadação-e-força-manutenção-da-taxa-de-juros-em-níveis-elevados, por que será que ninguém nunca pensou em cortar o mal pela raiz?

Será que é tão absurda assim a ideia de pôr fim ao Senado? Será que alguém que me lê saberia dizer para quê serve esse aparato monstruoso de Renan Calheiros e José Sarney? Vejam só a maravilha: vocês conseguem imaginar os bilhões que serão poupados só em gastos com pessoal, sem contar com os outros gastos? Mais do que isso: teríamos uma regime unicameral que deveria prestar contas permanentemente à população. Isso passa longe do socialismo, mas é lógico melhoraria a vida de todo mundo.

Pelo jeito, no entanto, não há muitas forças políticas capazes de levantar essa bandeira muito longe.

É uma pena.

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A direita Gabeiriana

Ô, Gabeira! O que é isso, companheiro?

Ô, Gabeira! O que é isso, companheiro?

No meu twitter, há algum tempo atrás, dediquei uns dois ou trés ‘twits’ ao ilustre ex-comuna-sequestrador-de-embaixador-estadounidense Fernando Gabeira. Não consegui me expressar muito bem naquela ocasião. Quem sabe com um post as coisas mudem.

Como de praxe entre a rapazeada que abandona as trincheiras de la revolución, o deputado precisa, a todo momento, mostrar que “está recuperado”. Na Folha de São Paulo, em sua coluna semanal – ao lado do nosso conhecido colega José Sarney -,  é muito comum ver Gabeira fazer alusões às “ameaças totalitárias do marxismo”, às “falsas promessas da estrela vermelha” e coisa e tal. (Para o imaginário coletivo, se o Sarney é o anjo do mal, o Gabeira é um demônio ao contrário: saiu nono círculo do inferno direto para o céu da direita.) Até aí tudo bem. Tranquilo. Hoje, porém, ele me encheu o saco.

O Gabeira não é um político comum. Não é corriqueiro. Ele, admito, tem estilo. Não representa o arcaico nem o anacrônico como o Sarney. Não está no mesmo nível que a direita comum: é o que há de mais sofisticado e desafiador no discurso liberal. Longe dos estereótipos, não carrega com ele o arquétipo fascista comum aos reacinhas que encontramos por aí. É tolerante, democrático, anti-extremismos.. enfim, tudo de bom.

Lógico que não.

Se é hora – como diz Gabeira – de os “marxistas assumirem as consequências de seu pensamento”, talvez seja o exato momento da rapazeada da liberal-democracia assumir também – Gabeira incluso. E, não, meus caros: não vou falar da “fome, da miséria, que se alastra pelo terceiro mundo”. Isso todo mundo sabe. Penso em algo um pouco mais sutil e menos evidente. Os Capitães Nascimento da vida como consequência do discurso “da tolerância”. Explico.

Hoje em dia, é muito comum abrir um jornal e ver o pessoal da direita defender fervorosamente os “direitos humanos, a dignidade da pessoa humana, o Estado Democrático de Direito e coisa e tal”. E é isso o que tem que ser feito mesmo. O que há de se matutar, no entanto, não é apenas o que dizemos: mas tudo o que subjaz todo o nosso discurso. Aquela hipocrisiazinha básica e necessária para a sobrevivência de cada um. A gente sabe que os “direitos humanos nunca valerão para todo mundo, e que alguns são mais iguais que os outros”, mas falar isso é bonito, e acalma o nosso coração. Para ficar claro: subjetivamente, nenhum de nós acreditamos que poderemos viver efetivamente um mundo de paz, objetivamente, no entanto, há uma impressão geral da população de que deveríamos garantir a vida digna a todos – de que essa opinião é a única aceitável.

E não é a mesma coisa que acontece com a democracia? Quantos de nós acreditamos nos políticos? Quem atravessou o mar da internet para chegar a esse blog poderia dizer que poria um ente querido nas mãos de um senador no nosso país? Suponho que não. Ao mesmo tempo, porém, há um consenso geral de que a democracia é, evidentemente, o menos pior dos regimes. E o pior: qualquer um que tentar tirar esse suposto véu, falar que a tal da democracia é uma farsa, será imediatamente chamado de ditatorial, vermelho ou chato-feio-e-bobo. O que pensamos no nosso íntimo, grande parte das vezes, sequer é comentável com o colega ao nosso lado. Temos uma reputação a zelar, não é  mesmo?

cidadão-de-bem de direita pode dar aqueles belos discursos acerca da irracionalidade da pobreza e da miséria justamente porque há certas coisas impronunciáveis que acontecem por aí, e assentam o terreno para que ele faça durma tranquilo. Todo mundo sabe que a favela tá tomada, que nego sobe lá pra matar arbitrariamente – e isso acontece todos os dias. Ninguém precisa ser nenhum gênio para saber que, no Brasil, quem vai para a cadeia não tem dinheiro, e que o Código Penal só é ativado quando convém – a gente chama um cara tipo o Batman, ou o Capitão Nascimento e, pronto, estamos salvos. Nós, porém, podemos fingir que nada disso está acontecendo: a água nunca bateu na nossa bunda, certo?

A pergunta que fica, porém, é: e se, por um mísero acaso, uma contingência do destino, o limiar entre os “meliantes” e o “cidadão de bem” se perdesse? E se, de repente, não pudéssemos mais discernir quem é “uma ameaça”, e quem é “um cidadão comum”?

O que aconteceria?

PS: eu tinha mais coisa a falar a respeito do Gabeira e o texto dele, mas esse post já tá grande. Fica pra próxima.

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