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Posts Tagged ‘Golpe em Honduras’

O povo de Honduras resiste ao golpe militar.

O povo de Honduras resiste ao golpe militar.

Quem me conhece, sabe que eu gosto de conversar com o pessoal que é de direita. Não é por aquele motivo clichê e hipócrita: “ah, se você me apresentar argumentos racionais, eu serei convencido”. Não. Isso não passa da hipocrisia mais deslavada. Só pode ser convencido aquele que coloca o seu interlocutor na posição formal do convencimento. Traduzindo: só é convencido quem quer se convencer. Já ouviram falar na história do “quem fala é tão importante quanto o que se fala?”. É exatamente assim que funciona. Já teve um cara chamado Hegel que falou sobre isso (a forma não se separa do conteúdo), mas isso é assunto pra um outro tópico. Por isso, ler o que a direita tem dito tem um sentido bastante específico: coletar argumentos para destruí-la. Simples assim.

Mas tem um outro motivo também. Como ser que pensa, e portanto existe, sempre tive uma certa dificuldade de adequação neste mundo. É natural que seja assim. Basta ter o tico e o teco para ver que, definitivamente, há algo errado no reino da Dinamarca. Nesse ponto, não precisa ser de esquerda para perceber. A direita que é de direita mesmo, também tem olhos – também tem princípios. Também defende ideias. Conclama, assim como nós da esquerda conclamamos, a Razão para si. Também diz estar do lado da Verdade, da Justiça, da Democracia e da Liberdade. A única diferença, lógico, é que eles estão errados (hehe). Não é isso, no entanto, que me impede de reconhecer uma determinada racionalidade e coerência em alguns de seus pensadores. A verdade verdadeira mesmo é que dá pra contar nos dedos as pessoas que eu conheço que são (e se assumem) verdadeiramente de direita. Ser de direita, no Brasil, pega mal. É feio. Por isso o respeito que nutro por aqueles que aceitam sair do armário – não é uma decisão fácil, não. A direita enrustida, aquela que se diz “de centro”, ou que “sempre foi simpática à esquerda”, mas que, na prática, defende o que há de mais conservador e retrógado nunca terá o meu respeito.

Não obstante, em determinados momentos da história isso não é possível. Essa minha tolerância respeitosa com a direita, de vez em quando, tem que ser substituída por outra coisa um pouco mais agressiva. É o caso do que tem acontecido em Honduras recentemente. Em momentos como esse, não há que se nenhuma papa na língua: a defesa do golpe feita pela grande mídia é um dos casos mais evidentes de mau-caratismo jornalístico que já tive conhecimento. De repente, o termo “governo de fato” foi substituído por “governo interino”, e começaram a pipocar no noticiário análises de “especialistas” falando que a “destituição” de Zelaya teria “cumprido dos os requisitos constitucionais”. Como diria o Riegel: só pode ser sacanagem.

Vamos aos fatos. No dia 28 de junho, em Tegucigalpa, militares hondurenhos, aproximadamente às 6 da matina, acordaram o Zelaya e o expulsaram do país. Vamos ver as notícias do período: a Folha, o New York Times, entre muitos outros dizem com todas letras: foi Golpe. Procurei alguma notícia da Veja no período mas, estranhamente, não encontrei nenhuma notícia relatando o ocorrido no seu índice – ainda era feio demais se posicionar a favor do golpe, por isso, entre falar bem do governo e ficar calados, é lógico que eles ficaram calados. Nesse momento, os fatos permaneciam cristalinos, e as manchetes eram categóricas. Alguns exemplos interessantes:

Diz o Editorial da Folha, no dia 30 de junho: “O Itamaraty acerta ao subscrever a condenação internacional à intervenção militar e pedir que Zelaya seja “incondicionalmente reposto em suas funções”. Ao mesmo tempo em que é divulgado a posição de Obama: “o golpe afirma terrível precedente na região”. Como cereja do bolo, na mesma data, dois dias depois do golpe, há uma entrevista com Enrique Ortez, membro do alto-escalão do governo golpista. Vale a pena dar uma olhada no que a Folha diz sobre ele. – “O recém-empossado ministro de Relações Exteriores de Honduras, Enrique Ortez, terá a tarefa mais difícil do novo governo do país: convencer o mundo de que não houve um golpe de Estado. Até ontem, nenhum país havia reconhecido a posse do presidente Roberto Micheletti.” O “ontem” ao qual o jornalista se refere é o 29 de junho. O nosso hoje, 4 de outubro de 2009, ainda não contém nenhuma nação desse mundo que reconhece como legítimo o governo golpista de Honduras – a não ser, é claro, a imprensa nacional.

Tudo mudou quando Zelaya, num ato de audácia e coragem, apareceu na embaixada brasileira. Subitamente, o que era inequívoco transfigurou-se. Sedentos por manchar a imagem do presidente, loucos por mais um factóide para ser usado na eleição do ano que vem, a mídia partiu para cima. O que, antes, representava uma postura correta, mudou completamente no exato momento em que o presidente legítimo de Honduras pisou na embaixada.

Lula teria “deixado a imparcialidade de lado”. O Brasil, sempre conhecido como hábil “mediador”, teria abandonado essa posição para estar do lado, agora, de um presidente constitucionalmente deposto. Começam a pipocar, na imprensa, argumentos que buscam legitimar o golpe militar no país da América Central. Não vou colar notícias aqui provando o fato: basta procurá-las. Merval Pereira, Sardenberg, Lúcia Hippolito, Alexandre Garcia e outros pareciam travar uma disputa sobre quem falaria mais asneira. Lucia dizia que “os apoiadores de Zelaya não davam comida para os servidores brasileiros da embaixada”, e que, por isso “estaria no melhor dos mundos”, e “poderia ficar lá para sempre”. Merval Pereira, com singular propriedade, defendia: “ora, trata-se de um governo legitimamente deposto, o que foi ilegal foi o exílio forçado de Zelaya”. Alexandre Garcia, não ficando atrás, bradava: “a embaixada parece um acampamento do MST!”

Enquanto isso, do outro lado do mundo, a revista Time elogia a política externa brasileira: “Still, because most analysts agree that the Honduras coup sends a dangerous signal to the region’s fledgling democracies, they feel that having Brazil’s respected heft thrown more directly into the mix could help negotiations. Says another source close to Lula, “I think the talks are evolving now that Zelaya is back and under our protection.” Pra quem não manja do english: eles tão dizendo aí que a maioria dos analistas concorda que o golpe em Honduras manda sinais negativos para a região, e que a postura do Brasil pode ajudar nas negociações. Tudo isso no dia 30 de setembro.

Ufa. Acho que acabei. Mas, afinal, por que tomei tanto tempo escrevendo tudo isso, nessa exaustiva tentativa de demonstrar a incoerência da mídia brasileira?

Porque, meus caros, como já disse em uma antigo post sobre a crise em Honduras, há um evidente perigo pousando sobre a América Latina. Os governos progressistas, que conquistaram acachapantes vitórias ao longo da década de noventa, e lograram êxito em instituir uma nova hegemonia na região, estão ameaçados. Há fortes indícios de que Honduras possa se tornar um modelo para o resto do continente.

Essa mesma imprensa que hoje aplaude os golpistas, que legitima através de falacias jurídicas um governo ilegítimo e impopular, é a mesma imprensa que aplaudiu o golpe militar brasileiro em 64. Aliás, o procedimento utilizado foi bastante semelhante. Expulsou-se o presidente, declarou-se a vacância do cargo no Congresso por meio de um documento falsificado, e institui-se a ditadura. A única diferença, já disse Marco Aurélio Garcia, assessor da presidência para assuntos internacionais, naquele simpático (mas reaça) programa da Mônica Waldowogel, está no fato de que Jango havia optado pelo exílio voluntário, enquanto Zelaya fora expulso com um fuzil em sua cabeça.

Os que se referem à Honduras como “República das Bananas” se esquecem de um pequeno fato: a linha que separa a América do Sul da América Central é muito mais tênue do que parece. A dinâmica da América-Latina é uma só. Fiquemos atentos.

Quem me conhece, sabe que eu gosto de conversar com o pessoal que é de direita. Não é por aquele motivo clichê e hipócrita: “ah, se você me apresentar argumentos racionais, eu serei convencido”. Não. Isso não passa da hipocrisia mais deslavada. Só pode ser convencido aquele que coloca o seu interlocutor na posição formal do convencimento. Traduzindo: só é convencido quem quer se convencer. Já ouviram falar na história do “quem fala é tão importante quanto o que se fala?”. É exatamente assim que funciona. Já teve um cara chamado Hegel que falou sobre isso (a forma não se separa do conteúdo), mas isso é assunto pra um outro tópico. Por isso, ler o que a direita tem dito tem um sentido bastante específico: coletar argumentos para destruí-la. Simples assim.
Mas tem um outro motivo também. Como ser que pensa, e portanto existe, sempre tive uma certa dificuldade de adequação neste mundo. É natural que seja assim. Basta ter o tico e o teco para ver que, definitivamente, há algo errado no reino da Dinamarca. Nesse ponto, não precisa ser de esquerda para perceber. A direita que é de direita mesmo, também tem olhos – também tem princípios. Também defende ideias. Conclama, assim como nós da esquerda conclamamos, a Razão para si. Também diz estar do lado da Verdade, da Justiça, da Democracia e da Liberdade. A única diferença, lógico, é que eles estão errados (hehe). Não é isso, no entanto, que me impede de reconhecer uma determinada racionalidade e coerência em alguns de seus pensadores. A verdade verdadeira mesmo é que dá pra contar nos dedos as pessoas que eu conheço que são (e se assumem) verdadeiramente de direita. Ser de direita, no Brasil, pega mal. É feio. Por isso o respeito que nutro por aqueles que aceitam sair do armário – não é uma decisão fácil, não. A direita enrustida, aquela que se diz “de centro”, ou que “sempre foi simpática à esquerda”, mas que, na prática, defende o que há de mais conservador e retrógado nunca terá o meu respeito.
Não obstante, em determinados momentos da história isso não é possível. Essa minha tolerância respeitosa com a direita, de vez em quando, tem que ser substituída por outra coisa um pouco mais agressiva. É o caso do que tem acontecido em Honduras recentemente. Em momentos como esse, não há que se nenhuma papa na língua: a defesa do golpe feita pela grande mídia é um dos casos mais evidentes de mau-caratismo jornalístico que já tive conhecimento. De repente, o termo “governo de fato” foi substituído por “governo interino”, e começaram a pipocar no noticiário análises de “especialistas” falando que a “destituição” de Zelaya teria “cumprido dos os requisitos constitucionais”. Como diria o Riegel: só pode ser sacanagem.
Vamos aos fatos. No dia 28 de junho, em Tegucigalpa, militares hondurenhos, aproximadamente às 6 da matina, acordaram o Zelaya e o expulsaram do país. Vamos ver as notícias do período: a Folha, o New York Times, entre muitos outros dizem com todas letras: foi Golpe. Procurei alguma notícia da Veja no período mas, estranhamente, não encontrei nenhuma notícia relatando o ocorrido no seu índice – ainda era feio demais se posicionar a favor do golpe, por isso, entre falar bem do governo e ficar calados, é lógico que eles ficaram calados. Nesse momento, os fatos permaneciam cristalinos, e as manchetes eram categóricas. Alguns exemplos interessantes:
Diz o Editorial da Folha, no dia 30 de junho: “O Itamaraty acerta ao subscrever a condenação internacional à intervenção militar e pedir que Zelaya seja “incondicionalmente reposto em suas funções”. Ao mesmo tempo em que é divulgado a posição de Obama: “o golpe afirma terrível precedente na região”. Como cereja do bolo, na mesma data, dois dias depois do golpe, há uma entrevista com Enrique Ortez, membro do alto-escalão do governo golpista. Vale a pena dar uma olhada no que a Folha diz sobre ele. – “O recém-empossado ministro de Relações Exteriores de Honduras, Enrique Ortez, terá a tarefa mais difícil do novo governo do país: convencer o mundo de que não houve um golpe de Estado. Até ontem, nenhum país havia reconhecido a posse do presidente Roberto Micheletti.” O “ontem” ao qual o jornalista se refere é o 29 de junho. O nosso hoje, 4 de outubro de 2009, ainda não contém nenhuma nação desse mundo que reconhece como legítimo o governo golpista de Honduras – a não ser, é claro, a imprensa nacional.
Tudo mudou quando Zelaya, num ato de audácia e coragem, apareceu na embaixada brasileira. Subitamente, o que era inequívoco transfigurou-se. Sedentos por manchar a imagem do presidente, loucos por mais um factóide para ser usado na eleição do ano que vem, a mídia partiu para cima. O que, antes, representava uma postura correta, mudou completamente no exato momento em que o presidente legítimo de Honduras pisou na embaixada.
Lula teria “deixado a imparcialidade de lado”. O Brasil, sempre conhecido como hábil “mediador”, teria abandonado essa posição para estar do lado, agora, de um presidente constitucionalmente deposto. Começam a pipocar, na imprensa, argumentos que buscam legitimar o golpe militar no país da América Central. Não vou colar notícias aqui provando o fato: basta procurá-las. Merval Pereira, Sardenberg, Lúcia Hippolito, Alexandre Garcia e outros pareciam travar uma disputa sobre quem falaria mais asneira. Lucia dizia que “os apoiadores de Zelaya não davam comida para os servidores brasileiros da embaixada”, e que, por isso “estaria no melhor dos mundos”, e “poderia ficar lá para sempre”. Merval Pereira, com singular propriedade, defendia: “ora, trata-se de um governo legitimamente deposto, o que foi ilegal foi o exílio forçado de Zelaya”. Alexandre Garcia, não ficando atrás, bradava: “a embaixada parece um acampamento do MST!”
Enquanto isso, do outro lado do mundo, a revista Time elogia a política externa brasileira: “Still, because most analysts agree that the Honduras coup sends a dangerous signal to the region’s fledgling democracies, they feel that having Brazil’s respected heft thrown more directly into the mix could help negotiations. Says another source close to Lula, “I think the talks are evolving now that Zelaya is back and under our protection.” Pra quem não manja do english: eles tão dizendo aí que a maioria dos analistas concorda que o golpe em Honduras manda sinais negativos para a região, e que a postura do Brasil pode ajudar nas negociações. Tudo isso no dia 30 de setembro.
Por que tomei tanto tempo escrevendo tudo isso, nessa exaustiva tentativa de demonstrar a incoerência da mídia brasileira?
Porque, meus caros, como já disse em uma antigo post sobre a crise em Honduras, há um evidente perigo pousando sobre a América Latina. Os governos progressistas, que conquistaram acachapantes vitórias ao longo da década de noventa, e lograram êxito em instituir uma nova hegemonia na região, estão ameaçados. Há fortes indícios de que Honduras possa se tornar um modelo para o resto do continente.
Essa mesma imprensa que hoje aplaude os golpistas, que legitima através de falacias jurídicas um governo ilegítimo e impopular, é a mesma imprensa que aplaudiu o golpe militar brasileiro em 64. Aliás, o procedimento utilizado foi bastante semelhante. Expulsou-se o presidente, declarou-se a vacância do cargo no Congresso por meio de um documento falsificado, e institui-se a ditadura. A única diferença, já disse Marco Aurélio Garcia, assessor da presidência para assuntos internacionais, naquele simpático (mas reaça) programa da Mônica Waldowogel, está no fato de que Jango havia optado pelo exílio voluntário, enquanto Zelaya fora expulso com um fuzil em sua cabeça.
Os que se referem à Honduras como “República das Bananas” se esquecem de um pequeno fato: a linha que separa a América do Sul da América Central é muito mais tênue do que parece. A dinâmica da América-Latina é uma só. Fiquemos atentos.
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Militar hondureño caminha pelas ruas de Tegucigalpa

Militar hondureño caminha pelas ruas de Tegucigalpa

Os próximos dias devem ser cruciais para o futuro do país com mais golpes de Estado na América Latina – e olha que a concorrência é grande. Após uma semana de intensa mobilização e tentativas de acordo, parece que Honduras chegou de vez a um impasse insuperável. As instâncias diplomáticas foram esgotadas, e qualquer espécie de consenso pacífico parece não ser mais possível no país da América Central.

Pros próximos dias, junto com a volta de Zelaya – o presidente democraticamente eleito – podemos esperar uma batalha sangrenta nas ruas hondureñas. O chamado às ruas já foi feito. O ultimato já foi dado. Não há mais o que ser feito a não ser esperar (e torcer) para que o povo de Honduras retome as rédeas de seu destino.

Chama a atenção o contexto no qual esse golpe aconteceu: a completa rejeição internacional do ataque às instâncias democráticas de Honduras contrasta com o contexto militarizado dos anos 60. Ainda assim, é evidente que a simples pressão internacional não é o suficiente para reestabelecer um presidente. A ambiguidade da política norte-americana deve ser avaliada com o mesmo cuidado. Se Obama parece acenar com o repúdio ao golpe efetuado, na prática, a política dos E.U.A. não é tão amena quanto apregoam. Que Obama não é Bush, isso ninguém duvida. Mas, por mais simpático que seja, Obama continua o commander-in-chief do maior império da face da Terra. Esse detalhe é importante.

No mais, não podemos cair na besteira apregoada por aí: “ah, Honduras é apenas mais uma república de bananas”. Se há uma lição a ser tirada dos últimos acontecimentos na América Central, é que há um risorgimento da direta na latinoamerica – o que hoje pode ser um caso pontual, daqui a alguns anos pode se configurar numa tendência. Que Chávez, Correa e Evo fiquem de olho. Acabou a moleza. Os próximos anos serão fundamentais para uma avaliação dessa onda nacionalista-revolucionária no nosso continente. O tal do projeto do socialismo do século XXI estará em jogo.

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