Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Rio 2016’

Cidade Maravilhosa

Não deu pro Obama

Não deu pro Obama

Eu sei que vocês devem estar tristes porque este blog está meio abandonado. A verdade é que, com o início das aulas, não tenho lá encontrado muito tempo para atualizá-lo – a preguiça andava forte. O ócio, que nas férias foi tão produtivo, não tem encontrado lugar nesse semestre tão atabalhoado de estágio e tantas disciplinas. Nessa semana foi diferente: o impulso narcisístico de escrever e ser lido foi mais forte que a indolência.

Os últimos acontecimentos são por demais instigantes intelectualmente que a ânsia por voltar à ativa na militância internética floresceu novamente. Tudo começou com Honduras e o risorgimiento da direita brasileira, que mostrou sua verdadeira face: os caras realmente gostam de um golpe militar. Os últimos editoriais dos maiores jornais, e os recentes comentários de colunistas do mainstream jornalístico são dignos de junho de 1964 – o mau caratismo impera soberano (sim, basta fazer uma comparação com os grandes meios de comunicação internacionais). Mas, com todo o respeito que Zelaya merece, ainda que o desprezo que tenho pela mídia brasileira necessite de um canal de escape, talvez não seja esse o momento. O que me trouxe até este blog foi outra coisa: o feito histórico do Rio de Janeiro na Dinamarca. Há muito tempo (talvez só o inigualável gol do Pet no tri-carioca, em 2001) não me sensibilizava dessa maneira.

Alguns devem estar se perguntando: como assim, Fernando? Logo você, que se acha tão crítico, tão de esquerda, tão contra o senso-comum, vai apoiar uma candidatura como essa, que vai gastar bilhões enquanto o Brasil continua com milhões de miseráveis?

Sim, meus caros, sou um entusiasta da candidatura da Cidade Maravilhosa – ao contrário de tantos brasileiros, imersos no fundado receio da corrupção, e da necessidade de construção de outras prioridades, para além das Olimpíadas. Não vou perder muito tempo na defesa do Rio – até porque este não é o ponto mais difícil de se contrapor. Todo real gasto – seja ele público ou não – representa um investimento. Voltará aos cofres públicos por meio de impostos. Isso significa que um aparente gasto exorbitante representa um retorno da mesma magnitude.

Melhor: é a oportunidade do sempre protelado acerto de contas histórico do Brasil com o povo do Rio de Janeiro. Neste ponto, Lula foi fantástico. De uma cidade que já foi o capital do País (ver qualquer entrevista dele após o resultado), a representação sintética do espírito brasileiro, o Rio hoje figura como o espaço da falcatrua, do tráfico e malandragem. De centro cultural e político, passou a ser a cidade o brizolismo – por isso, boicotada pelos militares. As Olimpíadas são a oportunidade da cidade mais bonita do Brasil ressurgir para nós e para o mundo – repensar o seu saneamento, despoluir a lagoa Rodrigo de Freitas, construir um transporte público eficiente. Por incrível que pareça, isso terá um impacto em todo o território nacional. A construção de uma identidade brasileira também passa pela reascenção dos cariocas.

É justamente este o ponto ao qual quero chegar. Ninguém tem a ilusão de que uma Olimpíada pode pôr fim a todas as mazelas de uma nação ou cidade (nós sabemos, não é? para isso temos a revolução socialista). No entanto, se há um legado que pode ser deixado pelo evento é o fim do complexo de vira-lata brasileiro – a colonização. Não, não: não quero que construamos a noção do “Brasil Potência” tão caro aos conservadores, e funcional para a opressão de nossos irmãos latino-americanos. Falo de um outro aspecto, talvez mais sutil: o enaltecimento de nossa cultura, de nossos hábitos, como espaço de reconhecimento e ligação entre todos nós. Sim, eu falo dos clichês: do futebol, samba e alegria. Eu falo da solidariedade entre aqueles que pouco ou nada têm. Falo da nossa música, que remete aos nossos antepassados – e por isso é insubstituível -, e que vem sendo sumariamente mutilada ao longo dos tempos, por gravadoras cujo único objetivo é o lucro. Não falo das “belezas naturais incomparáveis” – isso já seria demais. Falo de nossa cultura em sentido amplo, falo daquilo que nos identifica como povo brasileiro, ainda um vir-à-ser. Falo daquilo que nos fará largar o olhar para o além-mar, para passar a observar a nossa realidade latino-americana.

Se o Brasil sempre se fez Brasil a partir da submissão ao olhar europeu – essa noção de que sempre fomos um povo vagabundo e preguiçoso – talvez seja esse o momento de inversão. Surge, aí, a oportunidade da virada. É hora de virarmos os olhos para o nosso País, para o nosso continente. Se é bonito ter um doutorado na França, que seja ainda mais bonito pensar as grandes questões brasileiras e ser reconhecido por seus pares por sua contribuição à nação. É, sem dúvida, um passo mísero na construção da soberania – mas, não tenho dúvidas, é um passo certeiro.

Read Full Post »